A festa canibal tupinambá
Tâmis Parron

Em 1495, em sua segunda viagem à América, Colombo encontrou, na pequena ilha Martinica, alguns corpos despedaçados. Eram os restos de um festim antropofágico realizado dias antes. Foi assim que um europeu viu, pela primeira vez, a antropofagia americana, praticada por vários povos indígenas. Com o sucesso dos relatos do alemão Hans Staden, que viveu de 1553 a 1555 com os tupinambás e foi quase devorado por eles, a imaginação européia deslocou o ritual para o Sul e, em meados do século 16, já o identificava com o Brasil.
Os tupinambás habitavam o litoral desde o Pará até São Paulo. No atual Sudeste, aliaram-se aos franceses que perambulavam pela costa para guerrear contra portugueses e tupiniquins. Nas lutas, os tupinambás transformavam em iguarias os índios, mamelucos e brancos que capturavam. Para os nativos, ser comido era uma honra reservada a guerreiros. Aos olhos europeus, nada poderia ser tão diabólico.
Receita Tupinambá
Como os índios brasileiros preparavam seu prato principal
1. O INGREDIENTE
Ao chegar na aldeia, o prisioneiro tinha que se apresentar dizendo: “Aqui chegou a sua comida”. As mulheres raspavam sua sobrancelha e dançavam de alegria. Depois, o cativo podia passar meses vivo. Na véspera do sacrifício, várias aldeias se reuniam para beber o cauim, um drinque de milho e mandioca fermentados
2. AQUECIMENTO
Os tupinambás pintavam a testa do prisioneiro e o amarravam pela cintura com uma corda. O carrasco soltava uma provocação: “Quero matar você, pois sua gente matou e comeu meus amigos". Se fosse um índio, a vítima ficaria honrada e devolveria assim: “Meus amigos me vingarão”
3. MODO DE PREPARO
O carrasco pulava para trás do cativo com a ibirapema (um tacape) e dava com ela na cabeça do preso. Os seus miolos saltam para fora. “Executam a vítima como se mata um porco: a porretadas”, afirmou em 1557 o missionário francês André Thevet
4. AMACIANDO A CARNE
As mulheres arrastam o corpo sem vida para uma fogueira, onde raspam toda a pele do cadáver até que o tecido fique completamente branco. Depois tapam o ânus do morto com um pau, para que nenhuma porção preciosa da comida escape por ali
5. A ORIGEM DO “MINGAU”
Um homem corta as pernas e os braços do morto e os distribui entre as mulheres. Rasga o tronco da nuca ao cóccix para retirar as vísceras, que são fervidas até formarem um caldo que tinha um nome comum hoje: mingau. Partes moles (a língua e o cérebro) ficavam com as crianças
6. HOMENAGEM AO CHEF
O ritual se encerrava com uma “honra ao mérito”: o carrasco ganhava novo nome e recebia uma cicatriz feita pelo cacique com o dente de um animal selvagem. Recebia também uma pulseira feita com os lábios do sacrificado
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